Nós, filósofos moçambicanos, reunidos num colóquio
científico por ocasião da abertura dos primeiros Doutoramentos de Filosofia em
Moçambique, decidimos por via deste manifesto, manifestar a nossa profunda
solidariedade com o nosso povo que volta a conhecer situações dramáticas de
violência e de guerra como aconteceram no passado.
A vocação da filosofia não consiste unicamente num pensar a
realidade do homem e o seu estar-no-mundo (dimensão teórica), mas ela tem
também necessariamente que militar marxianamente pela sua transformação.
As transformações essenciais que urgem no contexto
moçambicano nos parecem, em primeiro lugar, a estabilidade, em segundo, o
desenvolvimento económico, político e social e, em terceiro, a criação de uma
verdadeira comunidade nacional (cum munia/partilha
de bens materiais e imateriais).

A paz pressupõe a tolerância que não é simplesmente o
antónimo da intolerância, mas também da indiferença em relação a sorte
política, económica, social, em resumo, a sorte humana do outro.
Voltaire dizia: Eu não
estou de acordo contigo mas vou me bater para que tu possas dizer a tua opinião.
Toda a guerra aparentemente justa nas suas finalidades é
intrisicamente injusta nos seus meios. A guerra comporta uma monstruosa
cruelidade na qual o homem não só mata o outro homem, mas o insidia, o assalta,
sacrifica-o com toda a crueldade que lhe é possível. A “guerra dos 16 anos”
está lá para testemunhar barbaridades e desumanidades que prescidem de toda
descrição.
O comportamento mais honesto e mais moral numa guerra, é
sempre desonesto e amoral por razões objectivas, de maneira que se dá o paradoxo
da tragédia da guerra poder conter dentro de si uma busca de uma justiça nos
fins, mas que é inexoravelmente e intrinsecamente injusta nos meios. Esta é a
inevitável condição da criação da tragédia na tragédia.
É preciso não esquecer a lição de Kant: A guerra produz mais malvados do que aqueles que ela destroi.