Esta reflexão ocorre-me por várias razões, uma das quais é a crítica que muitas vezes me é feita (por vezes até por amigos ou familiares bem intencionados) de que como intelectual (ou académico) eu devia colocar o meu saber ao serviço duma causa justa. Muitas vezes a crítica começa assim mesmo: “um intelectual como tu devia...”, algo que denota uma posição presciente de conhecimento profundo de causa a partir da qual é possível não só julgar a moralidade do que alguém diz como também tirar as devidas consequências do que é dito. Quando sou confrontado com esse tipo de posições tento retorquir com uma distinção entre “neutralidade” e “objectividade”. Só que de cada vez que faço isso tenho plena consciência de que não consigo convencer muita gente. São duas (talvez três...) as razões que explicam o meu falhanço, todas elas profundamente implicadas com a qualidade do debate na esfera pública.
A primeira tem a ver com uma hostilidade contra a ideia de objectividade fomentada sobretudo pela leitura marxista dos fenómenos sociais que dominou a reflexão intelectual em Moçambique durante uma boa parte do período pós-colonial. Essa leitura andou obcecada com a ideia do Fim da História e, consequentemente, partiu do princípio segundo o qual haveria uma posição intelectual moralmente correcta – a posição, portanto, que fosse mais consistente com o tipo de acção que era preciso empreender para se chegar ao Fim da História – que um intelectual, por opção pessoal, aceitaria ou rejeitaria. Daí a ideia de “intelectual reaccionário” e daí também a intolerância que foi característica da actividade intelectual em Moçambique durante muito tempo. Infelizmente, esta atitude ainda não desapareceu, ou melhor, deixou sequelas. Há muito boa gente por aí que acredita sincera e honestamente na ideia de que quem defende uma posição moralmente diferente da sua o faz porque ou é intelectualmente desonesto, ou então ainda não viu a luz (no discurso mais popular reduz-se isso ao famoso “lambe-botismo”). A ideia de que em questões morais não há ciência (nem academia) que nos possa orientar com segurança não cabe na mente de muita gente.

Falei de duas razões, mas há uma terceira que é própria do nosso País. Enquanto não houver, em Moçambique, um trabalho sério de reconciliação com o nosso passado difícilmente encontraremos a linguagem certa para falarmos de forma menos emocional sobre as coisas da nossa vida. Enquanto quem encontrou na ideologia política (no Marxismo e no anti-comunismo) justificação para fazer mal aos outros – porque era para o seu próprio bem – não tiver a coragem de pedir desculpas à História do País pelas atrocidades cometidas em nome duma posição moral superior difícilmente seremos capazes de ver no debate de ideias a troca de perspectivas sobre o que é (e não o que devia ser) e difícilmente seremos capazes de ver que o que devia ser é histórico, portanto, algo que se constitui no nosso próprio devir, e nunca algo pré-determinado e facilmente recuperável através da prática duma ciência “engajada” ou dum compromisso com o “povo”.
Escrevo estas linhas triste por ver como há cada vez menos debate de ideias, menos interesse pelos méritos de questões e, sob capa de engajamento, nos diabolizamos uns aos outros, encontramos nessa postura conforto e, pior ainda, pelo fervor com que defendemos os nossos compromissos ideológicos, acabamos simplificando os desafios graves que o País enfrenta reduzindo a sua não-resolução a teorias de conspiração e contribuíndo dessa maneira para aumentar expectativas que nenhum político e nenhum governo (por mais íntegro e comprometido com a causa do povo) vai ser capaz de satisfazer. No passado essa postura crítica e intelectual convocou o autoritarismo e a intolerância, tal e qual os vivemos com Samora Machel. A descrição do que é não proporciona argumentos para fundamentar a moralidade da receita. São coisas distintas que deixam o intelectual tão perplexo quanto o não-intelectual.
*Elisio Macamo é filósofo e mora na Basiléia.
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